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Sem estranhamento chega a ser estranho

Depois de um razoável tempo sem escrever sobre as experiências de minhas saídas solo (não porque eu não as esteja registrando, mas porque realmente não as tenho vivido ultimamente), volto com uma boa história pra compartilhar. Eu diria inusitada, pra não dizer inédita.

Como mencionei em texto anterior, estou residindo em Catalão (Goiás). Uma cidade com cerca de 100 mil habitantes e sem muitas opções de lazer, cultura e entretenimento. Traduzindo: não há como “sair sozinha”, pois todo mundo se conhece por aqui e vale dizer que são sempre as mesmas pessoas nos mesmos lugares. Ou seja, eu até posso ir sozinha, mas não surte o mesmo efeito porque não demora muito tempo e as pessoas conhecidas vão se concentrando ao redor ou me convidando a ficar com elas e logo já estamos em turma. Então, depois de duas tentativas vãs, desisti. Até porque o grande lance de ir e estar numa balada sozinha(o) é justamente o anonimato.

Por conta de todos esses detalhes, tenho saído cada vez menos. E, num tedioso final de semana recente, deparei-me refletindo sobre a previsibilidade que eu nem quero, mas que já se tornou repetição. O meu quase desespero se dá mais ou menos pela seguinte razão: quando me pauto por uma análise de cenário pela ótica do retrovisor (passado e presente), eu não consigo enxergar qualquer mudança de realidade sob a perspectiva do binóculo (presente e futuro). Foi aí, nesse ponto chave, que me questionei sobre o que devo fazer para sair desse estado de paralisia.

Ao contrário do que você possa imaginar, a resposta não foi instantânea. Veio em etapas. Primeiro, eu pensei em ampliar o horizonte...o raio de abrangência. Aí, foi fácil projetar Uberlândia (Minas Gerais), que fica a cerca de 100km de Catalão. Então, logo soltei a frase: o jeito é sair em Uberlândia. Isso mesmo, soltei a frase. Falei mesmo, em voz alta, porque eu falo sozinha, pra quem não sabe. Depois, logo veio uma pergunta que, analisando agora, me parece tão atípica em se tratando de mim: mas com quem? Foi nesse exato momento que um farol apontou e eu voltei à realidade. Como assim, “com quem”? Eu já sabia a resposta antes mesmo de formular a pergunta. Oras, comigo e ninguém mais. Eu e eu mesma. Simples assim.

Diante do choque de perceber que já começo a me condicionar às convenções que nunca me couberam bem, tratei logo de programar tudo para o final de semana seguinte. E lá fui eu. Peguei a estrada no sábado logo após o almoço e chegando em Uberlândia fui direto para o hotel próximo ao local escolhido para a noitada de sábado, cuja reserva já estava efetivada. Praticidade é o meu nome.

Não quis chegar tarde no local, pois quando não conhecemos o ambiente e a rotina de público o melhor mesmo é evitar correr riscos. Começar a noite numa fila não seria nada animador não é mesmo? Como previsto, já tinha um pessoal por lá, mas a entrada estava tranquila. Fiz o giro tradicional, que inclui a visita ao banheiro e a parada no bar para a retirada da primeira bebida da noite. Ah, eu podia beber sem preocupações porque deixei o carro no hotel e fui de táxi, assim como a Angélica (piada boba, eu sei).

Outra vantagem de chegar mais cedo é poder escolher aquele lugar estratégico. Assim foi. Consegui um aparador com banco suspenso disponível e lá me instalei. De onde eu estava, tinha visibilidade das pessoas do lado de fora, mas ao mesmo tempo tinha uma vista privilegiada da porta de entrada. O que me garantiu que ninguém adentrava o ambiente sem passar pela minha criteriosa avaliação.

Lugar agradável, bom atendimento, música boa, pessoas completamente desconhecidas e elas iam chegando gradativamente e assim o meu sorriso foi se formando naturalmente no rosto para não sair mais durante toda a noite. Sim, eu estava ali, sozinha e pela primeira vez naquele lugar. No entanto, estava me sentindo em casa.

Agora, quero abordar os pontos fora da curva. Porque eles, sim, merecem todo o destaque nesse texto. Inicialmente, quero dizer que quando me refiro ao bom atendimento, isso inclui também o fato de que nenhum dos garçons da casa me olhou com estranheza, nem me perguntou se eu estava esperando mais alguém. Nada disso. Veja só você, é possível ir a um lugar sozinha sem que isso seja jogado na sua cara com um lembrete desnecessário. E, digo mais, recebi atendimento diferenciado. Me senti uma diva.

As pessoas ao redor também não me lançaram olhares questionadores ou de espanto. Elas naturalmente notavam que eu estava sozinha, mas isso não as incomodou ao ponto de começarem a me incomodar. Ou seja, sem perguntas constrangedoras dos garçons, sem olhar enviesado do público presente. Mais um avanço. A noite realmente caminhava muito bem e prometia ser boa.

Passado um tempo, a pista de dança foi liberada. Esperei até que todos se deslocassem para lá e só depois um certo tempo fiz o mesmo. Quando você sai sozinha, ao andar é como se, na verdade, você desfilasse...mesmo não sendo modelo e tendo plena consciência disso. O fato é que você se sente tão dona(o) de si, tão plena(o), que o chão se torna firme o bastante para que você seja quem quiser ser, desde que seja tão somente VOCÊ.

E quando essa segurança toma conta de você, as pessoas em volta parecem perceber. Elas te notam. Elas te observam. Elas te acompanham. E não estou falando necessariamente de interesse, pois nessas ocasiões eu percebo que são mulheres, homens e até casais. Eles só olham. Há também os que fazem mais que simplesmente olhar sem interesse, é claro! E, cá entre nós, ainda bem que há!!!

Ao chegar no balcão do bar e olhar em volta eu agradeci pela decisão de estar ali. Pela decisão de me permitir vivenciar um momento de diversão real em meio a dias tão tensos e confusos. Ao virar-me para a pista de dança, com a cerveja na mão e o salto nos pés, caí na dança...sem medo de ser feliz ou parecer ridícula. Dancei sozinha e acompanhada, cantei, sorri, interagi. Conheci pessoas. É sempre assim. Quando saímos sozinhos ficamos mais suscetíveis a conhecer gente nova. Isso é vida!!

O diferencial em Uberlândia foi o seguinte: em todas as conversas iniciadas (e não foram poucas), sem exceção, não houve qualquer estranhamento ou julgamento pela minha atitude de sair sozinha. As pessoas reagiam de forma natural. Teve gente que até colocou a turma à disposição para caso eu “quisesse” ficar com eles algum tempo. O tom não foi de pena ou solidariedade, como em diversas situações anteriores. Foi apenas um “assim como você, nós também estamos abertos”. Esse é o lance. É respeitar as escolhas dos outros.

Confesso que em tantas saídas sozinha nada parecido ou similar ocorreu antes e curiosamente isso me soa estranho, embora trate-se de um estranhamento bom, na realidade, extremamente positivo. Pela primeira vez me senti completamente “normal” e confortável dentro de toda a minha anormalidade.

Para finalizar, quero registrar mais uma vez que sair sozinha pra mim, particularmente, é sempre sinônimo de poder. Isso tem se confirmado a cada saída solo, em todos os aspectos. É um baita remédio para baixa autoestima (porque, às vezes, ela bate na gente...e não adianta negar). O que posso dizer é que nessa saída especificamente tive o meu ego massageado e a minha autoestima revitalizada. Então, fica a dica.

Da mesma forma que algumas pessoas torcem o nariz para o meu comportamento, por outro lado é também comum pessoas me dizerem que queriam ter a mesma coragem, que admiram a minha atitude, que gostariam de poder fazer o mesmo. O que essas pessoas não percebem é que elas podem fazer o mesmo. Só basta começar...e logo. Eu recomendo!!!

Por Patricia Limeres – em 21/08/2016



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