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O poder de sair só

Fazia tempo que eu não saía sozinha. Aliás, sozinha não. Eu diria, em minha própria companhia. É que ultimamente não me tem faltado boa companhia. Aí, fui adiando, adiando...até que não deu mais. Estava sentindo muita falta. Mesmo com convites para programações em turma – com diversão e riso garantidos, optei por recusar todos, sem peso na consciência. E lá fui eu, de novo e como se fosse a primeira vez. Sim, porque é sempre diferente.

Até quem já me conhece e sabe dos meus gostos estranhos se indigna com a minha atitude. São poucas as pessoas que conseguem entender esse meu desprendimento. Até porque são raríssimas as pessoas que gostam de sair sozinhas, seja lá pra onde. Muitas até encaram um shopping, uma viagem e, quando muito, um cinema. Agora, pra balada? Já é bem mais difícil. Nesse caso, eu sou exceção assumida. Porque eu não saio sozinha apenas quando ou porque não tenho com quem sair. Eu saio sozinha porque curto e me sinto bem. De tempos em tempos, eu quero mais é sair sozinha mesmo. Sem ser ou ter sombras. Apenas a minha.

Já falei, em textos anteriores, sobre o quanto essa experiência é libertadora, do ponto de vista de independência. Então, dessa vez, vou ater-me a outro ponto alto e forte: o poder. Para quem lê isso escrito dessa forma, pode parecer uma bobagem, mas não é. Sair sem muletas (não querendo colocar as pessoas na condição de, mas já colocando) dá a sensação de poder, sim. Eu POSSO sair sem que tenha alguém para me acompanhar; eu POSSO me divertir sozinha; eu POSSO ser o objeto de meu contentamento; eu POSSO chegar e sair de um lugar sozinha. Eu simplesmente POSSO!

É claro que isso leva tempo e maturidade. Ninguém vê um jovem isolado na balada. Eu, ao menos, nunca vi. Jovens saem em tribos. Eu, quando mais nova, nem cogitava a possibilidade de ir sozinha pra balada. O bacana nessa fase é a interação, a bagunça, a farra. Com tempo, o que era legal dá lugar a outras preferências. Hoje, eu não tenho mais paciência de conversar na balada, pois é preciso colar a boca no ouvido do outro, gritar e, normalmente, ter de repetir pelo menos uma vez o que disse. Já cansei de rir de piada que eu nem ouvi em baladas...rs...por mera preguiça de perguntar: “o que?”; “hã?”. Atualmente, o que me diverte é a música, o ambiente, o clima.

E, nesse ponto, aproveito para lançar mão de um episódio clássico ocorrido nessa última saída, que vai traduzir bem a parte sobre o “poder” ao qual eu me referia, assim como as “tribos”. Acompanhe a cena...

Cheguei um pouco mais tarde do que o habitual na baladinha escolhida para o sabadão. Ou seja, de cara já me deparei com uma fila bem maior do que eu esperava. E pior do que encarar uma fila é esperar que ela ande a contento. Claro que não foi o caso.

À minha frente, uma turma de seis rapazes. Logo mais atrás, três mocinhas. Eu no meio. As garotas, fazendo de um tudo para chamar a atenção dos caras. E eu, repito, no meio. Praticamente me encolhendo para passar despercebida. Houve um momento em que eu quase cedi à elas o meu lugar na fila, mas declinei da ideia...não ia pegar bem...pra elas. Então, fiquei ali, na minha.

Não demorou muito para que um dos rapazes puxasse assunto. Resumindo, eles são de Aracajú/SE e estavam em Santos para um congresso, cuja área eu nem me lembro. Todos muito jovens e simpáticos. Fizeram algumas perguntas sobre a noite santista e chegaram ao ponto chave da questão, a pergunta que não queria calar.
- Mas você está sozinha?, um deles perguntou.
- Sim, eu respondi, com o máximo de naturalidade que pude.
- Mas você vai encontrar seu pessoal lá dentro, né?, um deles questionou após não se contentar com a minha resposta.

E, com um segundo sonoro "não", eles piraram. Não sabiam como reagir. E, então, um deles solta a pérola da noite.
- Ah tá, mas olha, se quiser ficar com a gente...
- Não, obrigada! Eu gosto de sair sozinha”, respondi, mas não antes de rir.

Enquanto isso, as moças estavam inconformadas. Sei disso porque ouvi ao fundo uma delas afirmando que quem sai sozinho tem mais chance mesmo de conhecer gente nova. Eu sou obrigada a concordar. É exatamente isso. Quem sai para os mesmos lugares, com as mesmas pessoas tende a manter o mesmo círculo de amizades, com uma exceção aqui ou ali.

Mas eu não quero desviar o sentido da cena. O que você pensou enquanto lia é exatamente o que pensou. Sem tirar, nem pôr. Os caras sentiram pena de mim. Não é digno de riso? Bonitinha a reação de solidariedade. Confesso que a iniciativa me tocou, mas o ponto é: o que faz com que, nos dias de hoje, as pessoas ainda pensem que sair sozinho é triste? Que as pessoas que saem sozinhas são coitadas? Já que é pra sermos antiquados, me sinto à vontade para usar um termo já batido e passado: fala sério!

O mais irônico de tudo é que, ao mesmo tempo, se para os caras eu era a coitada, na visão das moças, eu fui a esperta. Veja como tudo tem dois ângulos, no mínimo. Não é à toa que agradar a todos é ideia velha e descartada. Eu já desisti faz tempo.

Sinceramente, não sei responder aos meus próprios questionamentos, mas sei de uma única coisa: eu sei de mim e isso já me é suficiente. E, é por tudo isso, que quando saio sozinha eu me sinto poderosa! Simplesmente porque me basto. E não trata-se de discurso vazio, oco, individualista ou antissocial. Nada disso. Apenas sou e, nesses momentos, além de ser, me sinto dona de mim; de minha vida; de minha história e, sobretudo, de minhas escolhas.

Sou da opinião de que cada pessoa deve procurar algo que a faça sentir-se assim. Não importa o que. Porque esse “algo” pode mudar com o tempo, já que tudo é uma questão de fase. E, dentro de cada fase da vida, temos várias fases. Eu costumo respeitar todas as minhas, inclusive a de sair sozinha. Saio mesmo, e daí?

Por PATRICIA LIMERES – em 01 de outubro de 2012.

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