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De volta à balada, sozinha

Depois de muito tempo sem escrever sobre a “arte” de ir sozinha pra balada, cá estou para contar sobre mais um episódio. Não é à toa que não tenho escrito a respeito. Estive um pouco afastada dessa atividade que tanto me diverte e faz bem.

No segundo semestre do ano passado (2014), minha vida passou por uma mudança inesperada e radical. Mudei de função na empresa, mudei de cidade e até de estado. Saí do Litoral de São Paulo para o Estado de Goiás. Uma mudança e tanto. Foram meses de adaptação. Afinal, tudo o que é novo requer atenção, dedicação e encaixe. Portanto, dei prioridade para tudo isso.

Além disso, sair sozinha em Catalão não é como sair sozinha em Santos, por exemplo. Aqui, você sempre esbarra com alguém conhecido, seja no centro da cidade, no restaurante ou na balada. É inevitável. Todo mundo se conhece ou conhece alguém que te conhece. Até para conseguir sair literalmente sozinha é mais difícil, pois basta você comentar que vai sair e as pessoas perguntam pra onde e já começa a combinação para ir toda a galera. Praticamente uma mobilização. As pessoas aqui são assim: animadas e prestativas.

Mas ontem...ontem eu precisava sair sozinha, entende? Já estava mais do que na hora de me reencontrar como pessoa nesse novo lugar, que já nem me é tão novo assim. Decidida a encarar a minha primeira balada sozinha em Catalão e a dirigir à noite e na chuva (estou tentando vencer o medo de dirigir), lá fui eu. Não sem rezar muito, é claro.

A chegada foi tranquila. Fui mais cedo para não precisar correr o risco de ter de fazer baliza. Isso mesmo! Não vale rir. Depois de entrar, dei aquela voltinha tradicional de reconhecimento do ambiente e fui ao banheiro para dar uma olhada se ainda estava com cara de pânico por ter ido dirigindo até lá. Estava tudo sob controle.

Escolhi o lugar em que ficaria e lá me instalei. Perto de uma pilastra. Assim, se a banda não fosse boa, eu podia me encostar. Sair sozinha é assim. Você precisa pensar em tudo.

As baladas aqui costumam começar com o tal do puts puts ou mata barata, bate estaca, como eu costumo dizer. Não é muito meu gênero, mas já que estava ali, tentei curtir a música.

Não demorou muito para que as pessoas notassem que eu estava sozinha. Aí pronto! As mais diversas reações, mas todas já conhecidas. Primeiro, vem a expressão de estranhamento. Depois, a tentativa de adivinhar as possibilidades: se eu estava esperando alguém, se eu tinha levado o cano, se eu estava perdida. Enquanto isso, eu também observo a falta de personalidade das pessoas. De um lado, aquela duplinha de amigas que parecem ter nascido grudadas. Para onde uma vai, a outra tem que ir atrás. Do outro lado, aquela turminha que se você observar com um pouco mais de cuidado, vai descobrir que elas certamente combinaram a roupa que iam usar antes. Tudo igual, mas diferente. 

E, finalmente, chegamos à terceira fase: a abordagem. Não vou me aprofundar muito aqui, pois são as mesmas perguntas elaboradas de formas diferentes e que se resumem à curiosidade do por que uma mulher está sozinha na balada? Junto com isso vem também o sentimento de dó e chega ao ponto de oferecem companhia. É sério. Nem sempre estão com segundas intenções. Simplesmente as pessoas acham mesmo que alguém que decide, por si só, sair sozinho precisa de pena. Eu não me conformo com isso.

Em uma das abordagens chegaram a me perguntar se eu era namorada de um dos músicos da banda. É mole? Na cabeça da pessoa, era a única explicação para eu estar só. É por todas essas pérolas, pela música, pela capacidade de não ligar para as convenções da sociedade, que me divirto em minha própria companhia. Só de lembrar da cena, dou risada.

Em resumo, não importa se estamos em uma cidade grande ou pequena. No litoral ou no interior. As pessoas julgam em qualquer lugar. Eu julgo o comportamento padrão e repetido. Os outros julgam o estranho, o fora de lugar, o que está fora do círculo vicioso. A vida é assim.

A verdade é que o meu comportamento “fora da caixinha” sempre me traz novas experiências. Novas possibilidades. Novas oportunidades. Ontem, entrei e saí da balada sozinha, por escolha. E essa escolha costuma me cair bem. 

Por Patricia Limeres - 25 de janeiro de 2015.

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