Posso falar? Já estou quase convencida de que sou diferente mesmo, pra não dizer estranha. A parte boa é que eu não peço ou espero que ninguém me entenda. Nem poderia. Na maior parte do tempo, nem eu mesma consigo.
Para que se compreenda o raciocínio que me levou a essa conclusão, vou relatar mais um episódio em que saí sozinha e, ao mesmo tempo, em ótima companhia: a minha. Bem, já deu para notar que além de estranha, também sou modesta.
Noite dessas de sábado, estava eu em casa, à toa e sem programação, quando me deu um ataque de cinco minutos, sabe? Ah, não sabe? Tá, eu explico. É uma espécie de repente, que dá na mente da gente e cresce tão rápido que nem se sente. Aí, pronto! Sem que se prende ou pense, rende. Pois é, sem que eu me estende, o que me deu foi um desses.
Naquela noite eu não estava no pique de super produção e balada forte. Minha necessidade era outra. Então, tive um estalo. Num quiosque de praia, perto de casa, acontece um projeto de dança de salão com monitoria, nas noites de sexta e sábado; e tardes de domingo. Música, dança (que eu AMO), ar livre, descontração e baixo custo. Tudo isso no mesmo pacote? Eu não poderia querer mais nada. Tomada pelo tal siricutico, lá fui eu pra rua, quer dizer, pra praia.
Cheguei cedo, para garantir uma mesinha bem posicionada. Estratégia de quem quer dançar o quanto for possível. Pedi a minha cervejinha e fiquei lá, apreciando o momento e o ambiente enquanto a programação não começava.
Não demorou muito para que as reações, já previsíveis, começassem a se manifestar. É sempre assim. E, por mais que eu tente ficar alheia, não consigo. É notável demais. Pra ser bem franca, não me importo com o que pensam as pessoas, me incomoda apenas a sensação de intrusa no ninho ou peixe fora d´água que acabo sentindo, às vezes.
Cabe dizer que encaro essas reações tão pouco disfarçadas com o mesmo estranhamento que é dirigido ao que, pra mim, parece tão natural. Ponto de vista é realmente coisa de cada um. A receita talvez seja respeitarmos, ainda que não consigamos entender. Mas quem disse que o julgamento permite? A sociedade se cria no julgamento...do outro, é claro!
São inúmeras as situações:
- É o garçom que age como se eu estivesse esperando alguém que vai chegar a qualquer momento, sem que eu tenha dado qualquer sinal nesse sentido. E, à medida que o tempo passa e esse alguém imaginário não chega, ele fica constrangido pelo bolo que, na realidade, eu nem levei...a não ser na cabeça dele;
- É o pessoal da mesa ao lado, que fica dividido entre a curiosidade, a piedade e o egoísmo. Sim, porque o que eles querem mesmo é ampliar a mesa deles, não há outra disponível e eu estou ali, ocupando uma mesa sozinha (eu que fique em casa da próxima vez ou venha acompanhada, no mínimo, de duas ou três pessoas para fazer valer a ocupação da mesa);
- E quando não é uma dessas, são os monitores que me tiram pra dançar. Mesmo vendo que estou sozinha na mesa todo o tempo, um a um, faz a pergunta óbvia e em tom de inconformismo: “está sozinha?” Aí, se respondo: “não, vim com o fantasminha camarada”...sou grossa. Mas, gente, tudo tem limite, não? Dá pra cada um cuidar de si?
Admito que isso tudo me diverte. Porém, me diverte por ser surreal, entende? Em realidade, não há nada de engraçado nisso. Se eu fosse uma pessoa grilada, encucada e insegura e, mesmo assim, tivesse a iniciativa e coragem de sair sozinha um dia, acho que seria a primeira e a última. Porque não me animaria a repetir a dose, sinceramente. Eu insisto porque curto esses programas comigo mesma e, por essa razão, quase sempre terminam em diversão.
Contei tudo isso para chegar ao ponto alto da história, que é real, acredite.
Lá pelas tantas, eis que surge um conhecido, do nada. Esses esbarros não são muito comuns, mas acontecem. Ele também estava só, o que, como já disse em textos anteriores, é mais comum entre os homens. Animado por encontrar alguém com quem pudesse interagir, me tirou pra dançar. Como meu propósito ali era justamente esse, aceitei o convite. Primeiro erro da noite. O rapaz até dançava bem, mas queria dançar e papear ao mesmo tempo. Já eu, enquanto danço, prefiro sentir a música, a cadência, os passos. Pra mim, na hora da dança, a dança é o único destaque da vez. Portanto, evito dividir atenções. Eu me entrego. Economizo em palavras e extrapolo em movimentos.
Ainda assim, até aí, eu não tinha um problema. Administrei a dança com conversa e tudo bem. Não morri por isso. Só que ao término da música, ele pediu para emendarmos a próxima. Sem jeito de dizer não, topei. Segundo erro, seguido de mais papo e pouca dança.
Não bastasse isso, com a aceitação das duas danças seguidas, dei a ele o entendimento de que poderia me fazer companhia, à mesa, pelo resto da noite. Ledo engano. Não que ele fosse uma companhia desagradável. Não que eu que eu queira me tornar invisível aos olhos de quem me conhece quando saio sozinha. Nada disso.
Se bem que encontrar pessoas conhecidas nessas ocasiões em que estamos sós tem sempre dois lados. Pode ser uma surpresa boa, ou não. Depende de quem se encontra pela frente. Depende também do seu dia, temperamento e momento. Naquela noite, em específico, eu ficaria bem do jeito que estava antes dele aparecer. Nada pessoal. Só não queria conversar, dar atenção. Estava mais interessada em dançar e ficar na minha, quietinha. Afinal, saí de casa com esse objetivo.
Assim, como não sou muito boa no jogo das entrelinhas, logo encontrei uma forma de me despedir. Isso mesmo! Fui embora. Tá certo que eu já tinha me divertido e aproveitado um bocado, mas interrompi a minha noitada antes do previsto porque encontrei alguém conhecido, num dia que eu não estava pra interação social. Entende por que eu disse que começo a constatar que sou estranha mesmo? Pois é, sei lá, tenho a impressão de que qualquer pessoa no meu lugar se alegraria com o esbarrão ocasional. Já eu...
“Normal” seria aproveitar, mas comigo tudo parece ser assim: o estranho é normal e o normal não me cai bem. Acho que tem muito a ver com o meu querer. Se quero, quero! Se não quero...não me forço a querer.
Por Patricia Limeres – em 19 de outubro de 2012.
Para que se compreenda o raciocínio que me levou a essa conclusão, vou relatar mais um episódio em que saí sozinha e, ao mesmo tempo, em ótima companhia: a minha. Bem, já deu para notar que além de estranha, também sou modesta.
Noite dessas de sábado, estava eu em casa, à toa e sem programação, quando me deu um ataque de cinco minutos, sabe? Ah, não sabe? Tá, eu explico. É uma espécie de repente, que dá na mente da gente e cresce tão rápido que nem se sente. Aí, pronto! Sem que se prende ou pense, rende. Pois é, sem que eu me estende, o que me deu foi um desses.
Naquela noite eu não estava no pique de super produção e balada forte. Minha necessidade era outra. Então, tive um estalo. Num quiosque de praia, perto de casa, acontece um projeto de dança de salão com monitoria, nas noites de sexta e sábado; e tardes de domingo. Música, dança (que eu AMO), ar livre, descontração e baixo custo. Tudo isso no mesmo pacote? Eu não poderia querer mais nada. Tomada pelo tal siricutico, lá fui eu pra rua, quer dizer, pra praia.
Cheguei cedo, para garantir uma mesinha bem posicionada. Estratégia de quem quer dançar o quanto for possível. Pedi a minha cervejinha e fiquei lá, apreciando o momento e o ambiente enquanto a programação não começava.
Não demorou muito para que as reações, já previsíveis, começassem a se manifestar. É sempre assim. E, por mais que eu tente ficar alheia, não consigo. É notável demais. Pra ser bem franca, não me importo com o que pensam as pessoas, me incomoda apenas a sensação de intrusa no ninho ou peixe fora d´água que acabo sentindo, às vezes.
Cabe dizer que encaro essas reações tão pouco disfarçadas com o mesmo estranhamento que é dirigido ao que, pra mim, parece tão natural. Ponto de vista é realmente coisa de cada um. A receita talvez seja respeitarmos, ainda que não consigamos entender. Mas quem disse que o julgamento permite? A sociedade se cria no julgamento...do outro, é claro!
São inúmeras as situações:
- É o garçom que age como se eu estivesse esperando alguém que vai chegar a qualquer momento, sem que eu tenha dado qualquer sinal nesse sentido. E, à medida que o tempo passa e esse alguém imaginário não chega, ele fica constrangido pelo bolo que, na realidade, eu nem levei...a não ser na cabeça dele;
- É o pessoal da mesa ao lado, que fica dividido entre a curiosidade, a piedade e o egoísmo. Sim, porque o que eles querem mesmo é ampliar a mesa deles, não há outra disponível e eu estou ali, ocupando uma mesa sozinha (eu que fique em casa da próxima vez ou venha acompanhada, no mínimo, de duas ou três pessoas para fazer valer a ocupação da mesa);
- E quando não é uma dessas, são os monitores que me tiram pra dançar. Mesmo vendo que estou sozinha na mesa todo o tempo, um a um, faz a pergunta óbvia e em tom de inconformismo: “está sozinha?” Aí, se respondo: “não, vim com o fantasminha camarada”...sou grossa. Mas, gente, tudo tem limite, não? Dá pra cada um cuidar de si?
Admito que isso tudo me diverte. Porém, me diverte por ser surreal, entende? Em realidade, não há nada de engraçado nisso. Se eu fosse uma pessoa grilada, encucada e insegura e, mesmo assim, tivesse a iniciativa e coragem de sair sozinha um dia, acho que seria a primeira e a última. Porque não me animaria a repetir a dose, sinceramente. Eu insisto porque curto esses programas comigo mesma e, por essa razão, quase sempre terminam em diversão.
Contei tudo isso para chegar ao ponto alto da história, que é real, acredite.
Lá pelas tantas, eis que surge um conhecido, do nada. Esses esbarros não são muito comuns, mas acontecem. Ele também estava só, o que, como já disse em textos anteriores, é mais comum entre os homens. Animado por encontrar alguém com quem pudesse interagir, me tirou pra dançar. Como meu propósito ali era justamente esse, aceitei o convite. Primeiro erro da noite. O rapaz até dançava bem, mas queria dançar e papear ao mesmo tempo. Já eu, enquanto danço, prefiro sentir a música, a cadência, os passos. Pra mim, na hora da dança, a dança é o único destaque da vez. Portanto, evito dividir atenções. Eu me entrego. Economizo em palavras e extrapolo em movimentos.
Ainda assim, até aí, eu não tinha um problema. Administrei a dança com conversa e tudo bem. Não morri por isso. Só que ao término da música, ele pediu para emendarmos a próxima. Sem jeito de dizer não, topei. Segundo erro, seguido de mais papo e pouca dança.
Não bastasse isso, com a aceitação das duas danças seguidas, dei a ele o entendimento de que poderia me fazer companhia, à mesa, pelo resto da noite. Ledo engano. Não que ele fosse uma companhia desagradável. Não que eu que eu queira me tornar invisível aos olhos de quem me conhece quando saio sozinha. Nada disso.
Se bem que encontrar pessoas conhecidas nessas ocasiões em que estamos sós tem sempre dois lados. Pode ser uma surpresa boa, ou não. Depende de quem se encontra pela frente. Depende também do seu dia, temperamento e momento. Naquela noite, em específico, eu ficaria bem do jeito que estava antes dele aparecer. Nada pessoal. Só não queria conversar, dar atenção. Estava mais interessada em dançar e ficar na minha, quietinha. Afinal, saí de casa com esse objetivo.
Assim, como não sou muito boa no jogo das entrelinhas, logo encontrei uma forma de me despedir. Isso mesmo! Fui embora. Tá certo que eu já tinha me divertido e aproveitado um bocado, mas interrompi a minha noitada antes do previsto porque encontrei alguém conhecido, num dia que eu não estava pra interação social. Entende por que eu disse que começo a constatar que sou estranha mesmo? Pois é, sei lá, tenho a impressão de que qualquer pessoa no meu lugar se alegraria com o esbarrão ocasional. Já eu...
“Normal” seria aproveitar, mas comigo tudo parece ser assim: o estranho é normal e o normal não me cai bem. Acho que tem muito a ver com o meu querer. Se quero, quero! Se não quero...não me forço a querer.
Por Patricia Limeres – em 19 de outubro de 2012.
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